As nossas cidades vistas pelas crianças

Desenho da Lara, de 10 anos, de uma rua em Cucujães

No Dia Mundial da Criança, a ArkiPlay lançou um passatempo, desafiando as crianças a desenhar a sua rua. Ficámos muito satisfeitos por ter tantas participações e com tanta qualidade. Por isso, achei que seria importante analisar estes desenhos de forma a perceber quais os elementos das cidades mais significativos para as crianças, ou seja, identificar os que são desenhados mais frequentemente, procurando, assim, compreender como as nossas cidades realmente são.

No que diz respeito ao tipo de edifícios representados, aquele que aparece mais frequentemente é a casa, desenhada por 78,63% das crianças, o que pode dever-se ao facto de este ser o local onde elas moram e, consequentemente, o mais importante e significativo para si. Continuando na análise dos edifícios, percebi que as restantes categorias de edifícios apresenta uma frequência muito inferior à da casa, sendo que apenas 29,91% das crianças representam prédios, 22,22% desenham espaços comerciais e simplesmente 11,11% representam edifícios de exceção, como igrejas ou escolas. A diferença entre a frequência com que são desenhadas casas e prédios pode explicar-se pelo facto de, em Portugal, principalmente nas cidades mais pequenas, existirem ainda muito mais casas do que edifícios de habitação coletiva. Quanto à pouca presença de outros edifícios, quer comerciais (lojas, restaurantes), quer de serviços públicos (escolas, hospitais), ou ainda de edifícios históricos (castelos, igrejas), acaba por ser coerente com o facto destes elementos aparecem pontualmente nas cidades, não sendo tão abundantes como os edifícios de habitação.

Desenho da Mafalda, de 9 anos, de uma rua em São João da Madeira

Ao nível do espaço público, o elemento que aparece mais frequentemente é a estrada, desenhada por 89,74% das crianças, valor que contrasta com o desenho dos passeios, realizado por apenas 35,04% das crianças. Por um lado, esta situação pode explicar-se por, em alguns locais, as ruas não possuírem passeios, podendo ser o caso das ruas onde estas crianças vivem. Por outro lado, esta situação mostra que as cidades, atualmente, dão muito mais importância aos carros, com estradas muito largas, muitas rotundas (14,53% das crianças desenham este elemento) e muitos lugares de estacionamento (representado por 11,97% dos participantes neste passatempo) e pouco espaço para as pessoas, com passeios estreitos. Para além disso, as crianças deslocam-se na cidade maioritariamente de carro, sendo por isso o passeio pouco importante para elas. Esta valorização excessiva do automóvel relativamente ao peão, é evidente também pela diferença entre o número de crianças que representam carros (31,62%) e pessoas (15,38%). Apesar disto, existe ainda um grande número de crianças que desenha espaços destinados às pessoas. Entre estes, os jardins e parques são os espaços mais significativos, representados por 33,33% das crianças. Isto revela que as crianças atribuem uma grande importância à presença da Natureza nas cidades, aspecto que é reforçado pelo facto de 52,14% das crianças desenhar árvores. Esta característica pode estar relacionada com o facto de a maioria dos participantes neste passatempo pertencer a cidades pequenas, onde a relação com a Natureza é mais próxima, existindo ainda um número significativo de crianças, 15,38%, que desenha campos de exploração agrícola, algo que dificilmente aconteceria se a maioria dos participantes do passatempo vivessem em cidades grandes como o Porto ou Lisboa.

Assim, a partir da análise dos desenhos das crianças é possível compreender quais são as características mais relevantes das cidades e que lhes chamam mais atenção, permitindo a identificação de alguns dos seus problemas e das suas qualidades.

Desenho da Joana, de 8 anos, de uma rua em Válega

Artigo escrito pela ArkiPlayer Inês Rufino 🙂

P.s.: Aqui podem ser visualizadas todas as imagens participantes no passatempo!

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