Espaços, materialidades e práticas nas escolas alternativas

Crianças em atividades na escola de Vence (1936-1940), de Freinet.
Fonte: Site ICEM.

Há cerca de dez anos iniciei um caminho de investigação no campo da educação, que resultou num trabalho de mestrado sobre escolas alternativas, no ano de 2016. O meu interesse pelo assunto deu-se em função de uma formação académica anterior em arquitetura, que fez com que o meu olhar de educadora fosse também um olhar preocupado com as questões espaciais que compõe o dia-a-dia das instituições escolares, especificamente centrado nas relações entre os seus espaços e práticas. Para analisar a escola sob estes aspectos, foi necessário um olhar para o passado, como forma de compreender algumas questões como o aparecimento, a reprodução e a renovação de modelos educativos em diversos lugares e períodos históricos.

O termo “escolas alternativas” foi amplamente utilizado por escolas que surgiram nas décadas de 1960 e 1970 no Brasil, o meu país de origem, que tiveram como inspiração conceitos de liberdade e autonomia proclamados a partir do século XIX, por filósofos e educadores como Pestalozzi, Fröebel, Tolstoi, Ferrer i Guardia, Dewey, Ferrière, Freinet, Montessori, Rudolf Steiner, Korczak, Neill e Malaguzzi, entre outros, que buscaram, de diferentes formas, reinventar a escola até então existente, dando-lhe novos contornos. Essas experiências, que surgiram em diversos países da Europa, buscavam contrapor o modelo dito “tradicional”, centrado na transmissão de conhecimentos por parte de um(a) professor(a) – que sabe tudo! – a um(a) aluno(a), que nada sabe.

Crianças explorando materiais e objetos em áreas exteriores e em sala de aula.
Fonte: Sites Learning Spaces e Fondazione Reggio Children Centro Loris Malaguzzi Fundation.

Em relação à constituição e ao uso dos seus espaços, estes modelos revelavam uma preocupação em comum da aproximação das crianças com o meio natural, o que se refletiu na valorização das atividades fora da sala de aula, com passeios pelas cidades, saídas de estudos e exercícios ao ar livre; atividades coletivas como banhos de sol, de cachoeiras e piscinas; a adoção de animais domésticos e o cultivo de uma horta no ambiente da escola; e os espaços de oficinas e atividades artísticas, que promoviam a experiência prática, contrapondo-se aos métodos tradicionais de reprodução.

A partir destas experiências, também foram inseridas novas materialidades nas escolas infantis como os mobiliários ergonómicos, materiais sensoriais, de linguagem e de exercícios para a vida cotidiana, de ciências e de matemática, e uma série de jogos e brinquedos pedagógicos, entre eles os blocos de construção, que permitem a experiência construtiva de forma lúdica.

Atividades em ambientes diversos. Escola Montessori Colomba, 1932.
Fonte: Site da Escola Montessori Colomba, no México. Site Pedagogia Digital

Atualmente o “movimento alternativo” expandiu-se e diversificou-se muito, sendo possível encontrar escolas fiéis a um só modelo pedagógico, como as escolas Montessorianas de Maria Montessori, e as escolas Waldorf de Rudolf Steiner, assim como outras que desenvolvem seus próprios projetos fundamentados em mais de uma proposta ou abordagem pedagógica, onde os ideais alternativos são apropriados de forma particular e contextualizados.

Na Arkiplay, assim como em grande parte das experiências das escolas alternativas, trabalhamos com a metodologia de oficinas, a partir de um processo de permanente ação e reflexão. Essa metodologia possibilita a troca de experiências e a construção de conhecimentos de forma coletiva desde as etapas de planeamento, até a execução e a avaliação das atividades com as crianças. Outra característica do projeto que considero importante e enriquecedora é a composição multidisciplinar do grupo, com profissionais vindos de áreas como arquitetura, educação, design, artes, biologia e paisagismo, entre outros, o que faz com que tenhamos olhares diversos, mas complementares, que enriquecem o diálogo e o trabalho. Considero um privilegio participar do grupo Arkiplay, e sinto-me gratificada e desafiada em colaborar com a missão de transformar realidades e espaços através da arquitetura. Até a próxima!

Artigo escrito pelo/a ArkiPlayer Sabrina Silveira 😀 😀

P.S.: Para quem tiver interesse em conhecer um pouco mais do contexto atual dessas instituições, sugiro conhecer o Reevo, mapeamento coletivo das escolas alternativas pelo mundo: http://map.reevo.org.

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