Os desenhos das crianças aos nossos olhos

Desenho da Bianca, de 9 anos, de uma rua em Ovar

Quando lançámos o passatempo ArkiPlay do dia da criança em junho passado, fiquei com grande expectativa dos resultados, tanto em quantidade como em qualidade. Foi, mesmo assim, uma boa surpresa perceber que não só tivémos o maior número de participações até hoje -com um desafio tão simples!-, como tomar consciência que nos foi enviado, de vários pontos do país, um conjunto de trabalhos originais tão diverso quanto original! De tal forma que em equipa decidimos que não seria possível destacar apenas dois trabalhos, como nos propunhamos inicialmente. Teríamos de facto de encontrar um modo de valorizar todos e cada um dos desenhos!

Foi assim que nos propusemos começar um trabalho diário de leitura e interpretação individual destes 117 desenhos, publicando as nossas reflexões e leituras pessoais sobre cada um deles, e dando-lhes destaque, por um dia, na capa da página de Facebook da ArkiPlay. 117 dias em que observámos com cuidado e atenção o modo como cada uma das crianças participantes vê a sua casa, a sua rua, e se sente, mais ou menos, parte do seu mundo. Expondo assim a relação afetiva que estabeleceu com esses espaços, sejam eles muito edificados ou não. A muito poucos dias para terminar este trabalho e na sequência da análise quantitativa que publicámos no nosso artigo anterior -pela mão da Inês Rufino-, senti que estavam reunidas as condições para partilhar, noutro artigo, as minhas reflexões qualitativas sobre o desenho em geral e sobre este grupo de desenhos em particular.

Numa primeira observação dos desenhos que recebemos foi, desde logo, muito gratificante perceber que houve neles “pouca mão” dos adultos. A maioria das casas e ruas desenhadas tem particularidades que as afastam do desenho estereotipado -tantas vezes incentivado com a melhor das intenções-, e mostram-nos visões consistentes de como aquela criança vê e sente aquela construção ou aquele espaço. E de como se sente a vivê-la. Na leitura sucessiva e diária de cada um dos desenhos, foi também muito revelador interpretar a individualidade do olhar e da mão de cada um, e tentar adivinhar os sentimentos e o processo de trabalho por detrás deles, independentemente da idade dos desenhadores e das qualidades dos espaços que habitam. Sabendo que não é possível, com nenhuma sistematização, cobrir a totalidade do trabalho que temos lido e comentado, atrevo-me a refletir sobre eles agrupando-os genericamente em cinco tipos.

 

Da esquerda para a direita, desenhos da Keseniia, de 9 anos, de São João da Madeira, da Constança, de 6 anos, de uma rua em Válega, e do Afonso, de 9 anos, de Ovar

Os desenhos em planta ou esquemáticos são aqueles que denunciam um pouco algum trabalho de equipa com adultos –sejam eles os pais, ou professores. Mas mesmo nestes sentimos que tiveram um trabalho de equipa respeitador da individualidade de cada um, com resultados muito criativos e que revelam momentos de qualidade, de partilha e descoberta, entre pais e filhos, ou professores e alunos.

De facto o desenho em planta é uma abstração com a qual mesmo alguns adultos têm dificuldade. Nos exemplos que nos chegaram deste tipo de desenho identifica-se claramente uma condução do adulto, mas percebe-se a mão da criança, a solo ou a “quatro mãos”. Que bom deve ter sido participar neste processo de exploração e partilha de um conhecimento! Alguns usaram como base ou inspiração a cartografia digital ou a fotografia aérea com resultados muito plásticos! É aliás graças a estas ferramentas digitais e ao uso frequente do sistema de navegação GPS que a leitura em planta é agora mais fácil para uma maioria da população.

 

Da esquerda para a direita, desenhos do Afonso, de 6 anos, de uma rua em São Mamede Infesta, da Maria João, de 8 anos e da Rita, de 9 anos, ambos de uma rua em São João da Madeira

O desenho de alçados é geralmente aquele mais intuitivo para todos: mostra-nos a realidade que observamos completamente de frente. Sem “cálculos de cabeça”. É o primeiro que fazemos quando começamos a ensaiar as primeiras representações -por volta dos 2, 3 anos- e é aquele a que naturalmente recorremos quando alguém nos diz: “faz-me um desenho…” mas é também ele uma abstração. A realidade não é experimentada sempre e só totalmente de frente!

E é por isso que por vezes, quando aos 4, 5 anos –e mais tarde!- queremos explicar melhor “como funciona” o que vemos, começamos a “desdobrar” os alçados, rebater planos e explorar técnicas diferentes, como a do cubismo, sem termos consciência do que estamos a fazer. É nesta fase que se ouve muito frases como: “não sei desenhar isso” ou “o meu desenho está mal” ou “é feio”, quando o que se passa realmente é que aquele desenho o que está é a ajudar-nos a procurar entender o modo como vemos e sentimos a realidade à nossa volta e a nossa relação com o espaço que habitamos.

 

Da esquerda para a direita, desenhos do Duarte, de 8 anos, de uma rua em Arrifana, do André, de 8 anos, de uma rua em São João da Madeira, e do Dinis, de 9 anos, de uma rua em Ovar

O desenho de perspetiva acaba por ser uma evolução natural do desenho de alçado para aqueles que acreditam que sabem desenhar, mesmo quando muitos desenhos não lhes saem como gostariam. Para ser “bem feito” tem regras, e há vários tipos de perspetiva possíveis, principalmente de falarmos de perspetiva geométrica, mas o essencial é sermos aventureiros o suficiente para experimentar, à mão livre, e imaginando que estamos a olhar o mundo por intermédio de uma caixa, uma moldura ou a objetiva de uma câmara fotográfica!

 

Da esquerda para a direita, desenhos do António, de 7 anos, de uma rua no Porto, do Rafael, de 9 anos, de uma rua em Cucujães, e do Guilherme, de 10 anos, de uma rua em São João da Madeira

Quando observo desenhos de técnicas mistas vejo neles, por sistema, uma alma científica e um ser curioso e corajoso! O processo nestes desenhos é sempre muito mais importante do que o resultado final, e o que estes desenhadores aprendem ao desenhar é simplesmente impossível medir ou quantificar. Um dia esta aprendizagem vai ser “líquida”, mas não podemos prever quando.

Parecem, à primeira vista, desenhos “trapalhões” e confusos, mas não há nada de confuso ou trapalhão no modo como a mente que os desenha pensa ou a sua mão age. Partindo da realidade, o que os seus desenhos expressam são experiências e testes aos materiais que usa e às ideias que assaltam a sua mente, misturando cores improváveis e representando formas inesperadas, apenas para saber qual é o resultado. É simplesmente o método científico inato da tese-experiência-observação do resultado a funcionar!

 

Da esquerda para a direita, desenhos do Guilherme, de 10 anos, de uma rua em Cucujães, da Joana, de 8 anos, de uma rua em Cucujães, e do Hermínio, de 8 anos, de uma rua em Olhão

Dos desenhos típicos da infância, aqueles que pessoalmente me apaixonam irremediavelmente são os que, sem o saberem, usam traços e técnicas de representação que me recordam a obra de grandes artistas, do presente ou do passado. Comove-me ver o desenho de uma criança que representa a sua rua ou a sua casa de todos os ângulos possíveis sobre o mesmo retângulo de papel, como o faria Picasso no cubismo; como alguns desenhos nos contam a estória da rotina diária de uma criança na sua casa ou na sua rua, como o fariam a Frida Khalo e outros artistas naif; ou como noutros desenhos os fortes traços de lápis de cera com que uma criança desenha a sua casa, nos recordam as pinceladas emotivas de Edvard Munch, Vicent van Gogh ou outros expressionistas.

Por vezes estes desenhos são desvalorizados como sendo “infantis” ou “mal feitos”, um trabalho a melhorar ou uma fase a ultrapassar. Mas o que revelaria sobre nós, como observadores, se tecessemos esse mesmo comentário sobre uma obra inédita e até ao momento desconhecida de Picasso ou Frida Khalo?

Tenho por isso para mim que é muito importante não agir para o estereotipar os desenhos que fazemos e vemos fazer!

“Desenhar é ver”. Esta frase ouvi-a e ressoou em mim ao longo de vários anos, enquanto explorava as minhas habilidades de desenho, primeiro como criança, depois como adolescente, jovem e finalmente em adulta. De há uns anos para cá tenho tentado transformar este presente que recebi num presente que ofereço, com sucesso variável. Algumas das pessoas a quem tento oferecê-lo parecem não o compreender e por isso não conseguem recebê-lo. Não é fácil, eu sei.

É como outro presente que também me esforço por oferecer frequentemente, encontrando a mesma resistência: o “não precisas da borracha para nada quando desenhas!”. Na verdade não há desenhos feios ou mal feitos. Sejam feitos por adultos ou crianças. Cada desenho é a expressão da nossa atenção ao que vemos e sentimos, no momento em que o fazemos. Mais do que corrigir nele aquilo que não corresponde à nossa expectativa, podemos simplesmente olhar para ele e reconhecer o que conseguimos expressar exatamente como visualizámos na nossa mente. Em relação ao que gostaríamos de melhorar nos nossos desenhos, temos sempre a oportunidade de aceitar o resultado como provisório, pegar numa nova folha e redesenhar tudo! Porque desenhar é um processo. Serve para conhecer, reconhecer, explorar, descobrir e estabelecer novos limites, ou melhor, novos horizontes para as nossas capacidades e para nós próprios!

De facto aprender a desenhar é diferente de aprender a fazer contas. Não há certo ou errado, ou “prova dos nove” para desenhos. Desenhar é mais próximo de escrever textos poéticos ou literários, mas sem todas as regras gramaticais ou  ortográficas que não podemos quebrar. Porque quando desenhamos podemos inventar a nossa própria gramática gráfica e até os “carateres” com que queremos escrever a realidade que percebemos. E o nosso “traço” é como a nossa caligrafia: pessoal e intransmissível. Podemos descobri-lo e treiná-lo, copiando o traço dos outros, mas tal como a nossa caligrafia é só nossa, assim é também o nosso “traço” e o modo como desenhamos. Um dia encontramo-lo, se não desistirmos de o procurar! Ou ele encontra-nos a nós… Serve para comunicarmos as nossas visões, pensamentos, impressões, sonhos ou desejos. São nossos; só nossos!

Desenho do Diogo, de 9 anos, de uma rua em São João da Madeira

 

Artigo escrito pelo/a ArkiPlayer Maria Teresa Penas

P.s.1: Aqui podem visualizar todas as imagens participantes no passatempo!

P.s.2: Estou grata a muitas pessoas pela forma como sempre fui incentivada a desenhar. Desde logo ao meu pai, António Penas que nunca duvidou que “desenhar me estava no sangue”; à Rosalina, a minha professora primária, que pedia um desenho de ilustração de cada cópia ou ditado que fizéssemos de trabalho de casa e valorizava todas elas, premiando uma por dia; ao Américo Moura, meu professor entre o 7º e o 11º ano, que frequentemente fazia aulas “fora do lugar” e nos levava a desenhar pelos recreios da escola e pela cidade, à descoberta da arte escondida à vista de todos, e a conhecer galerias, cooperativas e casas que davam nessa altura os primeiros passos na divulgação artística no Porto, como a Árvore ou Serralves; ao António Olaio, que orientou o meu olhar e a minha mão na direção do corpo humano e da cidade com mais intenção e foco, no primeiro ano do curso de Arquitetura em Coimbra; e ao Vítor Silva que virou o meu olhar de novo para dentro, para procurar um modo de expressão do meu pensamento no segundo ano já no Porto e de novo depois de terminar o curso.

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